
Inclusão
Pessoas refugiadas em Atenas sem teto e sem apoio
Beatriz Jorge, Texto
Beatriz Jorge, Fotografia
A Grécia continua a ser um dos principais países de chegada para quem procura proteção internacional na União Europeia. Sem apoio e confrontadas com vários obstáculos, muitas pessoas refugiadas vivem hoje em condições altamente precárias em Atenas. Onze anos depois da chamada “crise de refugiados”, a situação já não recebe tanta atenção, mas não desapareceu.
A história repete-se a cada verão: com a chegada do bom tempo, há mais pessoas a fazer a perigosa travessia do Mediterrâneo Central rumo à Grécia. Outras cruzam a fronteira terrestre, no norte do país. Muitas seguem caminho até à capital, onde o elevado custo de vida pesa sobre toda a população. Depois de fugirem dos seus países em busca de proteção internacional na União Europeia (UE), acabam sem apoio e sem condições dignas de acolhimento, a dormir nas ruas, parques e praças de Atenas, durante semanas e até meses a fio.
Entre janeiro e agosto de 2026, chegaram à Grécia mais de 24.500 pessoas, segundo dados da Agência da ONU para os Refugiados (ACNUR). Pelo menos 107 morreram ou estão desaparecidas. A maior parte partiu da Líbia, no Norte de África, em direção à ilha grega de Creta. São, sobretudo, cidadãos do Bangladesh, Sudão, Afeganistão e Egito.
Viajo para Atenas no final do verão e quero compreender melhor a situação. Falo com amigos e antigos colegas que conheci enquanto voluntária na Grécia e que ainda ali vivem e trabalham. Muitas organizações não-governamentais (ONG) interrompem as suas atividades em agosto, mas recomendam-me que contacte a Love Without Borders for Refugees in Need (LWB), por ser das poucas a fazer trabalho de rua. Deslocam-se aos parques para falar com pessoas em situação de sem-abrigo e procuram apoiá-las através de aconselhamento, ajuda alimentar ou encaminhamento para outros serviços.
Um refúgio na cidade
Combinamos encontrar-nos no centro comunitário da LWB, um espaço que funciona como galeria de arte, onde estão expostas algumas obras de arte de crianças, jovens e adultos refugiados, mas também como sala de aula improvisada, aberta à comunidade migrante. É terça-feira, chego por volta das 14.30 horas e a aula de Inglês já começou. O professor é um voluntário holandês, muito expressivo e carismático, que está a explicar os antónimos com exemplos práticos: “good and bad”, “open and close” e por aí fora. No início da aula, conta com doze alunos, incluindo uma mãe com um bebé de colo. É a única mulher, todos os restantes são adultos e jovens adultos entre os vinte e os trinta e cinco anos. À exceção da mãe e da criança, para quem foi possível encontrar uma solução temporária, todos se encontram a dormir num parque – alguns há dias, outros há meses. Foi a pedido destes que a LWB começou a dinamizar aulas de Inglês, dada a importância da língua no dia-a-dia e na procura de emprego.
Entretanto, chegam quatro jovens adultos, oriundos do Sudão, que têm recebido apoio da organização. Vêm dizer que estão de partida. Foram abordados por funcionários municipais, no parque onde dormem, que os referenciaram para um campo perto da cidade portuária de Patras. Devem dirigir-se para lá o quanto antes, mas ninguém lhes disse como. Patras fica a mais de 200 quilómetros de Atenas e um bilhete de comboio ou de autocarro ronda os vinte euros, uma quantia de que nem todos dispõem.
O calor aperta em Atenas. A temperatura chega aos 38 graus lá fora, mas dentro da galeria estamos mais frescos. Este espaço torna-se um refúgio, onde é possível relaxar, estudar e conviver. À hora do lanche, há sanduíches para todos. O professor ausenta-se por instantes e volta com gelados – golpe certeiro, também é assim que se conquista o coração de um aluno.
A viagem do Abbas
Terminada a aula, a maior parte dos alunos vai embora. Quem fica senta-se à mesa a conversar. Apresento-me e explico que estou a recolher informação para escrever um artigo sobre a situação das pessoas refugiadas em Atenas. Com ajuda do Ahmad, o principal responsável pela gestão operacional da LWB, que vai traduzindo a conversa, o Abbas* decide contar-me a sua história. Em 2022, partiu do Sudão em direção à Líbia, onde permaneceu até 2025. Não diz nada sobre o tempo que lá passou e eu também não faço perguntas. Penso, porém, nos crimes perpetrados contra pessoas refugiadas na Líbia, que assumem formas particularmente brutais, como assassinatos, tortura, violência sexual e tráfico humano, e que têm sido amplamente documentados por organismos internacionais, incluindo as Nações Unidas (ONU).
Em março do ano passado, Abbas chegou finalmente à ilha grega de Creta. Ficou lá oito dias, até ser transferido para Tessalónica, no norte do país, a bordo de um navio militar. Não lhe explicaram para onde ia, nem por que motivo foi detido durante cinquenta e quatro dias, perto de Serres. Diz que tinha apenas uma muda de roupa, não recebeu qualquer tipo de apoio e não tinha ninguém com quem falar sobre a sua situação jurídica. Eram cerca de 700 as pessoas na prisão, que acabaram por ser transferidas para um campo nos arredores da cidade de Larissa. Meses depois de chegar à Grécia, Abbas pôde finalmente apresentar o seu pedido de asilo. Entretanto, já passou mais de um ano e ainda não tem uma data para a entrevista. Há registo de várias pessoas na mesma situação, que chegaram e/ou tentaram pedir asilo no mesmo período, sem sucesso. Entre julho e outubro de 2025, o acesso ao asilo foi suspenso para pessoas que chegavam por via marítima a partir do Norte de África.
Ao longo destes meses, Abbas, de 36 anos, deslocou-se para outras cidades à procura de trabalho. Há mais de dois anos que os requerentes de asilo não recebem o apoio financeiro a que têm direito, um modesto subsídio mensal para ajudar a satisfazer as suas necessidades básicas. “Trata-se de uma obrigação do Estado grego, consagrada tanto no direito da União Europeia como na legislação grega, e não de um favor ou de uma prestação concedida de forma discricionária”, pode ler-se num abaixo-assinado publicado por várias ONG, em março deste ano.
Em Tessalónica, Abbas trabalhou na apanha da cereja durante um mês. Foi uma experiência “positiva” porque tinha alojamento e recebeu o pagamento devido. A seguir, trabalhou dez dias numa plantação de tabaco, até que os patrões o mandaram embora sem lhe pagar, ameaçando chamar a polícia. Perante a minha reação, de cara abalada, o Abbas sorri e acrescenta que “já aconteceu mais do que uma vez”. Está em Atenas há duas semanas, à procura de trabalho. Conta que cortaram a água lá no parque e que agora, se quiserem beber, têm de andar um bom bocado até ao bebedouro mais próximo. Também já sofreram comportamentos hostis por parte dos vizinhos, que lhes atiraram água para que o chão ficasse lamacento e tivessem de procurar outro sítio para passar a noite.
Mantém o contacto com alguns conhecidos no campo, em Larissa, para garantir que não fecham o seu caso – quando os requerentes de asilo se ausentam por longos períodos, podem perder o lugar no campo. Abbas não quer que isso aconteça, mas também não pode esperar indefinidamente pelo desfecho do seu pedido de asilo.
A galeria fecha ao final da tarde. O Ahmad, eu e outra voluntária voltaremos a encontrar-nos mais tarde, para visitar um dos parques onde pernoitam várias pessoas refugiadas.
À noite no parque
A ideia é entregar uma sanduíche quente, fazer companhia e conversar um pouco. Paramos num pequeno restaurante de rua, perto da Praça Victória (Plateia Viktorias), para recolher as quinze sanduíches de falafel que o Ahmad encomendou e seguimos até ao parque. Quando chegamos, por volta das 22 horas, encontramos oito jovens sudaneses. Alguns estão a descansar, outros sentam-se connosco para jantar. O Ahmad dispensa apresentações, pois já o conhecem bem, mas a mim não. Sendo portuguesa, o meu país costuma despertar alguma curiosidade: o que penso sobre Cristiano Ronaldo, qual dos três grandes é o meu clube, e se Portugal é ou não um bom país para se construir um futuro. As perguntas sobre futebol são relativamente fáceis de responder, ao contrário da última.
Quantas pessoas dormem ali no parque? O Mazin*, 28 anos, diz-nos que o número vai variando; já houve mais, mas agora serão cerca de 30. Tanto ele como o Mahmoud* passam ali a noite há quase quatro meses, apesar das sucessivas operações noturnas e despejos por parte da polícia. “A polícia vem e leva-nos os colchões. Não é todos os dias, mas é várias vezes por semana. Dizem-nos que temos de arranjar outro sítio”, conta.
O Mazin, à semelhança de muitos refugiados sudaneses, partiu da Líbia em direção a Creta e foi posteriormente transferido para a ilha de Kos, onde há um “Centro Fechado de Acesso Controlado” (Closed Controlled Access Centre – CCAC), integralmente financiado pela UE e objeto de várias denúncias pelas suas condições desumanas e restrições à liberdade de circulação, que fazem do centro uma prisão de facto. Deu início ao processo de asilo e, em dois meses, recebeu o estatuto de refugiado. Disseram-lhe que tinha 30 dias para abandonar o campo e que deveria dirigir-se aos serviços de asilo, em Atenas ou Tessalónica, para levantar o seu documento de identificação.
O parque é um sítio “muito deprimente”, desabafa Mazin. Tem esperança de que “talvez consiga arranjar outro sítio para ficar, nos próximos dias... um quarto algures.” Ao contrário de Mahmoud, que pretende viajar para Bruxelas, Mazin resolveu dar uma oportunidade à Grécia. Quer orientar as coisas para trazer a esposa e os filhos, de três, sete e nove anos, do Sudão. “Se for para outro país, vai atrasar mais. Se o governo grego me ajudar, isto é, se me permitir, vou tentar encontrar-me com a minha família no Egito e trazê-los para cá”, partilha.
Por enquanto, tenta ganhar algum dinheiro para se sustentar e, se possível, pôr algum de parte. Há um ponto de encontro, perto do aeroporto, onde ele e outros companheiros aguardam que algum empregador apareça à procura de trabalhadores para o dia. Estudou agricultura no Sudão e geria um pequeno negócio no Egito, mas perdeu-o quando a guerra começou. Diz que está aberto a qualquer trabalho – pode ser nas obras, nas fábricas, nas plantações. Viaja mais de uma hora para cada lado, na esperança de chegar ao final do dia com 30 ou 40 euros no bolso.
Quem dorme ao relento?
Nos últimos seis meses, foram identificadas cerca de 200 pessoas em situação de sem-abrigo em Atenas, segundo dados da Agência da ONU para os Refugiados (ACNUR), que trabalha em conjunto com a autarquia. Entre elas estão cidadãos gregos, mas a maioria tem origem migrante. Panagiotis Psathas, responsável pelo Departamento de Apoio e Inclusão Social de Migrantes e Refugiados da Câmara Municipal de Atenas, alerta que este é um retrato necessariamente incompleto e instável: “Só porque encontramos alguém num parque, não significa que essa pessoa estará lá na semana seguinte.” É diferente com a população grega, que tende a permanecer num local específico.
O responsável municipal pela área da migração explica que existem quatro grupos distintos entre a população migrante sem-abrigo: beneficiários de proteção internacional, requerentes de asilo, pessoas não registadas e pessoas com proteção internacional na Grécia que foram deportadas de outros países europeus. Como é que acabam na rua?
As pessoas a quem é concedida proteção internacional dispõem de 30 dias para abandonar o campo. Sem uma estrutura de apoio para aprender a língua, obter a documentação necessária e conseguir um trabalho e um teto, torna-se muito difícil começar do zero numa cidade como Atenas. Segundo várias organizações no terreno, há pessoas em situações de extrema vulnerabilidade a serem postas na rua, sem qualquer alternativa. Matilde Bernabò, coordenadora da ONG Meraki Humanitarian Support, de que falarei mais adiante, dá conta de “uma onda de pessoas expulsas dos campos”, em maio, incluindo uma mulher grávida de sete meses e com um filho de três anos, um casal de 19 anos com um bebé de 30 dias e, mais recentemente, uma mulher que tinha dado à luz há uma semana.
Já os requerentes de asilo têm direito a permanecer no campo enquanto decorre o processo. No entanto, a maioria dos campos encontra-se isolada e afastada dos centros urbanos, o que faz com que muitas pessoas se ausentam temporariamente para trabalhar e obter alguma fonte de rendimento. Ao fazê-lo, correm o risco de perder o lugar no campo. Panagiotis Psathas diz que estes casos são mais fáceis de resolver: basta contactar a administração do campo e solicitar a readmissão do requerente de asilo, se este quiser voltar.
Por sua vez, as pessoas que mais recentemente passaram a fronteira terrestre sem serem intercetadas, seguindo caminho para Atenas, deparam-se com várias dificuldades para pedir asilo. Devem fazê-lo num campo, mas não podem simplesmente apresentar-se à entrada do mais próximo. Têm de aceder a uma plataforma online, que se encontra muitas vezes em baixo, e solicitar a admissão num campo. Podem ser obrigados a voltar para Tessalónica, a mais de 500 quilómetros de distância, pelos próprios meios. Sem documentos, correm o risco de ser abordadas pela polícia, detidas por entrada e/ou permanência ilegal no país, ou forçadas a regressar à Turquia através da fronteira terrestre – uma prática ilegal, mas amplamente registada, conhecida por “pushback”.
Psathas afirma que esta é já uma consequência visível do novo Pacto em matéria de Migração e Asilo da UE: “Neste momento, na prática, não há um processo de registo para estas pessoas. Temos a lei que implementa o novo Pacto desde 16 de junho. Desde então, sabemos de 131 casos de pessoas sem-abrigo que querem registar-se, mas não conseguem.”
Há ainda os beneficiários de proteção internacional na Grécia que tentaram fixar-se noutros países europeus, como a Alemanha, a Áustria e a Suíça, onde voltaram a pedir asilo. Rejeitados esses pedidos de asilo, são deportados para a Grécia, depois de terem passado vários meses ou até anos nesses países – alguns já falam a língua, têm emprego e filhos que frequentam a escola. A maioria regressa, porém, sem documentação válida, seja porque os documentos expiraram, se perderam, foram roubados ou ficaram retidos no país que os deportou. Renovar ou obter novos documentos é mais um obstáculo, que pode levar vários meses a resolver, durante os quais a pessoa não consegue, por exemplo, arrendar uma casa ou trabalhar legalmente, ficando ainda mais exposta à exploração.
Em 2025, 725 refugiados, incluindo famílias com crianças, foram deportados para a Grécia, a maioria dos quais (413 pessoas) pela Alemanha, segundo dados fornecidos pela Polícia Helénica em resposta a perguntas parlamentares. Foi um grande aumento face ao ano anterior, em que tinham sido deportadas 390 pessoas no total. Sobre estes casos, Psathas comenta: “Não há soluções práticas no que respeita ao alojamento, especialmente se se tratar de uma família. Estamos a discutir isto com o Ministério [da Migração e Asilo]. Demos-lhes toda a informação, dissemos que isto está a acontecer e que os números serão maiores, porque com o novo Pacto será mais fácil repatriar pessoas.”
Em julho de 2025, as autoridades belgas emitiram um relatório sobre as condições de acolhimento e o apoio disponível na Grécia para beneficiários de proteção internacional, que terá sido usado para justificar deportações para o país. Várias ONG no terreno contestaram o documento, que continha informações falsas e, inclusive, a referência a organizações que nem sequer estavam ativas. Depois de uma carta formal assinada por dez organizações, as autoridades belgas corrigiram o relatório e publicaram uma nova versão, em janeiro de 2026. No entanto, segundo as ONG, o novo relatório continua a pintar um cenário que não corresponde à realidade. Na prática, as pessoas refugiadas deportadas para a Grécia enfrentam tantos obstáculos que muitas acabam sem outra opção senão viver na rua, com pouco ou nenhum apoio.
O emaranhado burocrático
A cidade desperta, lenta, em tons quentes. Afigura-se outro dia de muito calor. Há anos que a Praça Victória, no centro de Atenas, se tornou um ponto de encontro para as pessoas em movimento. Muitas, em situação de sem-abrigo, pernoitam ali e nas ruas adjacentes. Numa delas, encontramos o Centro Comunitário de Victória, um espaço colaborativo que reúne várias ONG que prestam diferentes tipos de serviços à comunidade. “Everyone is welcome here!” (Aqui, todos são bem-vindos!), pode ler-se, na porta.
Os voluntários começam a chegar por volta das 9.30 horas. Embora o centro só abra dali a uma hora, já há quem aguarde para entrar, carregar o telemóvel e ir ao café. Cada pessoa tem direito a uma senha por dia para chá ou café. A Meraki Humanitarian Support é uma das organizações ali presentes e a coordenadora mostra-me o edifício, que dispõe de áreas reservadas a atividades com mulheres e crianças, prestação de cuidados de saúde e apoio e aconselhamento social. Em particular, a equipa da Meraki, composta por uma assistente social grega e seis estudantes voluntários, ajuda a obter os documentos necessários para aceder ao mercado de trabalho, à habitação, aos cuidados médicos e aos poucos apoios existentes.
Um dos maiores obstáculos é conseguir o AMA, um número de registo na Segurança Social que é atribuído no âmbito do primeiro emprego na Grécia e que é necessário para trabalhar legalmente. É o empregador que o solicita, mas muitos “ficam reticentes e não querem correr riscos”, explica Matilde Bernabò. É também necessária uma morada oficial, que pode ser comprovada através de um contrato de arrendamento em nome do trabalhador. O problema é que muitas destas pessoas estão em situação de sem-abrigo. Cria-se assim um ciclo difícil de quebrar: é preciso ter emprego para pagar uma casa, mas, sem uma morada, torna-se difícil conseguir o AMA, necessário para trabalhar legalmente.
Uma forma de ultrapassar este obstáculo é obter, junto das autoridades municipais, um certificado que comprove a situação de sem-abrigo. Athanasios Giampastos, assistente social grego que integra temporariamente a equipa da Meraki, recorda o caso de um beneficiário que tentou obter esta declaração: mandaram-no regressar à praça onde dormia, com a mulher e com o filho, e esperar pela visita de uma equipa municipal que confirmasse a situação. Não lhe disseram quando iriam, apenas que aguardasse. “É confrangedor, todos os dias”, afirma o voluntário, referindo-se a esta e a outras situações que tem testemunhado.
Quanto a programas de apoio, o HELIOS+ é o único dirigido especificamente a beneficiários de proteção internacional, mas tem uma capacidade limitada a 4323 participantes. Prevê apoio na aprendizagem da língua e no acesso ao emprego e à habitação, através de subsídios para o pagamento da renda. Porém, os beneficiários devem cumprir com uma série de requisitos burocráticos e, além disso, encontrar uma casa, pagar o primeiro mês de renda, no mínimo, a caução e a comissão da agência imobiliária – cerca de mil euros. “É ridículo! Ninguém tem dinheiro para isto”, afirma Matilde Bernabò. Acrescenta que é necessário estar-se desempregado para apresentar uma candidatura, mas para abrir uma conta bancária, exigida para receber o apoio, é geralmente solicitado um contrato de trabalho. “É um verdadeiro loop”, conclui.
Que opções existem?
O município de Atenas opera um único albergue noturno, que acolhe até 200 pessoas em situação de sem-abrigo. A coordenadora da Meraki garante que é praticamente impossível conseguir uma vaga neste albergue, destinado também aos cidadãos gregos. É necessário falar inglês ou grego e a admissão está condicionada à realização de vários exames médicos – um requisito que as pessoas refugiadas dificilmente conseguem cumprir, devido ao acesso limitado aos cuidados de saúde.
Nectarios Theocarakis é um dos cinco psicólogos que trabalham neste albergue. Diz-me que a barreira linguística não existe, visto que até contam com intérpretes. Confirma, no entanto, que é muito difícil conseguir um lugar: o albergue está sempre cheio, existe uma longa lista de espera e registam-se novos pedidos todos os dias. Estima que metade das pessoas sejam de origem migrante e lamenta a falta de recursos para contratar mais profissionais, incluindo assistentes sociais, psiquiatras e psicólogos. Segundo relata, grande parte das pessoas acolhidas enfrenta problemas de saúde mental graves, como depressão e esquizofrenia.
Algumas ONG (poucas, cada vez menos) e associações ligadas à Igreja acolhem pessoas migrantes sem-abrigo, mas têm uma capacidade muito limitada. O acesso depende, muitas vezes, da existência de contactos prévios e/ou da disponibilidade de uma vaga no momento da procura.
Prevalecem outras formas informais de alojamento: edifícios ocupados, quartos ou camas “cedidos” por empregadores, sobretudo nos setores da agricultura e do trabalho doméstico, e apartamentos transformados em “hostels” não oficiais. São soluções precárias e instáveis, muitas vezes sobrelotadas e insalubres, que expõem quem delas depende, sobretudo as mulheres, a vários riscos. Matilde Bernabò, que já contactou todos os centros de apoio em Atenas, aponta que as mulheres em risco de agressão ou abuso sexual não têm lugar nos abrigos para vítimas de violência: “Mesmo que o risco de que venha a acontecer seja altíssimo, se a violência ainda não aconteceu, não têm direito.”
Atenas com pouco poder para intervir
O acesso à habitação constitui um problema grave, especialmente em Atenas, onde, nas palavras de Psathas, “até para os gregos é um inferno encontrar um sítio para morar.” A forte pressão sobre o mercado imobiliário, agravada pelo turismo e pela expansão desenfreada do alojamento local, tem levado à escalada acentuada das rendas nos últimos anos. “Mesmo quando uma pessoa está integrada e consegue encontrar emprego, terá que gastar mais de metade do salário para pagar a renda”, pelo que o problema não pode ser resolvido através dos mecanismos normais do mercado.
“Ao contrário do que acontece noutros países da UE, onde os municípios dispõem de habitação social e de outros mecanismos de regulação, nós não temos, de todo, forma de intervir nessa área”, explica. Lamenta que o Governo não dê resposta às verdadeiras preocupações do poder local, optando por centrar o debate nas questões da segurança, da gestão das fronteiras e da migração, como acontece, de forma geral, na UE.
Os fundos atribuídos à migração no próximo orçamento de longo prazo da UE, que cobrirá o período de 2028 a 2034, triplicam em relação ao orçamento atual. A maior parte do dinheiro está destinada à proteção das fronteiras e a operações policiais. Só a Frontex, a agência da UE responsável pelo controlo das fronteiras, que tem sido repetidamente acusada de estar envolvida em “pushbacks” ilegais, receberá 12 milhões de euros.
Pergunto ao responsável municipal quais seriam as primeiras medidas a tomar caso a autarquia tivesse os recursos e competências necessárias. A resposta é imediata: defende a criação de uma estrutura de transição para pessoas refugiadas, com apoio na resolução de questões administrativas e na procura de emprego e habitação. “Se o Governo não o fizer, faremos nós”, afirma.
Diz também que é preciso melhorar a articulação com o poder central, reconhecendo que determinadas organizações internacionais, como a ACNUR, têm “maior acesso ao Ministério” do que a própria autarquia, que “não costuma ser chamada a participar quando se discutem estas questões” [de acolhimento e integração].
Athanasios Giampastos também é crítico do Governo, admitindo que, no início, este poderia não estar preparado para dar resposta adequada. Hoje, porém, considera que a situação é outra: “Querem menos refugiados e querem mantê-los à margem.” Embora o Governo disponha atualmente de mais financiamento, opta por canalizá-lo para áreas que considera de pouca utilidade, referindo-se aos milhares de milhões de euros alocados, por exemplo, à gestão das fronteiras.
A narrativa de uma “crise de refugiados” na Europa ganhou momentum em 2015. Já passou mais de uma década. O que mudou? As pessoas com quem falei no âmbito desta reportagem, que acompanham esta realidade há largos anos, têm a resposta na ponta da língua: muita coisa mudou, mas, no essencial, continua tudo na mesma. Mudaram as principais nacionalidades de quem chega, surgiram novas rotas – rotas seguras é que ainda não – e as políticas migratórias tornam-se cada vez mais restritivas. Apesar de tudo isto, as pessoas continuam a chegar, movidas pela mesma necessidade de encontrar segurança e paz. Movidas também pela esperança de reconstruir uma vida digna, um futuro com sentido. E nós, que resposta queremos dar quando nos perguntarem se isso é possível em Portugal?
*Abbas, Mazin e Mahmoud são nomes fictícios para proteger a identidade das pessoas entrevistadas.

Sobre a autora:
Nascida em Coimbra e criada no Interior Norte, estudou Ciências da Comunicação no Porto e Migrações Internacionais e Relações Étnicas em Malmö, na Suécia. Passou também por Atenas e Berlim, onde trabalhou com organizações não-governamentais na área das migrações. Entre o jornalismo, o trabalho humanitário e, desde 2023, o ensino, vê nas palavras um instrumento para construir um mundo mais justo, onde sejamos todos mais livres.