Partilha acende farol que aponta futuros

Sociedade

Partilha acende farol que aponta futuros

Nelson Rodrigues, Texto
Rafael Moreira, Fotografia 
 

Do encontro improvável entre cientistas e pescadores nasceu uma iniciativa que faz da ilha da Culatra um farol de sustentabilidade, enquanto é dínamo de partilha, resistência e participação. Tantas vezes de candeias às avessas com o poder e o progresso, esta pequena comunidade algarvia transformou escassez em oportunidade e surge agora como um laboratório vivo de transição energética que serve de modelo para o amanhã. 

Dos 68 anos que Gaspar Lopes leva na ilha da Culatra, mais de metade foram passados sem eletricidade, água potável e saneamento básico. Cedo se habituou a não ter casa de banho e a matar a sede com a água do poço, mas o que mais lhe custava era mesmo a falta de luz. “Tive sempre uma cegueira pela luz que havia no lado de lá da ria, em Olhão, por isso quando finalmente aqui chegou, há quase 35 anos, foi a maior alegria que me podiam ter dado, a mim e às outras pessoas”, conta o pescador. 

Mais tarde, aquele fascínio reacendeu-se quando um grupo de investigadores chegou à ilha com a ideia de ali criar uma Comunidade de Energia Renovável (CER). Enquanto outros desconfiavam, Gaspar tornou-se logo um aliado dos cientistas. “Ele veio ter comigo e disse-me que nasceu e cresceu com a ilha às escuras, mas que partilhava o nosso sonho, o de ver esta ilha toda iluminada com luz solar. E eu garanti-lhe que isso ia acontecer”, recorda André Pacheco, do Centro de Investigação Marinha e Ambiental (CIMA) da Universidade do Algarve.  

O motor desta visão de futuro é o Culatra 2030, projeto surgido há sete anos depois de uma candidatura ao programa Clean Energy for European Islands, que selecionou a ilha algarvia (e outras cinco) entre centenas de interessadas. Mas porquê a Culatra? “Esta aldeia enfrentou sempre os desafios do isolamento, lutou para manter as casas que foram consideradas ilegais, fez boicotes eleitorais e nunca deixou de estar unida. Reunia as condições para que os processos participativos fossem implementados e tivessem mais sucesso do que em outros locais”, revela o investigador. E assim foi. Mas isso só aconteceu porque a comunidade esteve sempre envolvida, seja em pequenas decisões ou em projetos mais complexos, como a constituição de uma cooperativa local, responsável pela gestão da energia. Chamaram-lhe C-Coop e é composta exclusivamente por culatrenses, como Jóni dos Santos, doutorado em engenharia eletrotécnica, que, entretanto, também se juntou à equipa de investigação. Conta-nos que o principal objetivo da cooperativa é tornar a ilha energeticamente autossuficiente durante o dia até 2030 e que, atualmente, já é possível suprir cerca de 28% das necessidades, embora, por enquanto, apenas num modelo de autoconsumo. 

Para isso, a povoação dispõe de painéis fotovoltaicos em cinco unidades de produção, a que se junta um barco movido a energia solar, já utilizado para o transporte da ostra. Com esta CER, a “cooperativa consegue produzir energia renovável mais barata e partilhá-la entre consumidores residenciais e equipamentos comunitários, sendo que, no final de cada ano, os cooperantes decidem o que fazer com o valor amealhado e aplicá-lo”, explica o jovem presidente da C-Coop. O objetivo é associar a circularidade ambiental à económica, uma vez que o lucro poderá ser reinvestido noutros projetos energéticos, ambientais e sociais, bem como na melhoria das habitações ou na descarbonização dos barcos de pesca.

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Gaspar Lopes, o pescador que olha para o Culatra2030 como um farol de esperança
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Painéis fotovoltaicos vão garantir a independência energética da ilha

As marés vão e vêm, a partilha fica  

O espírito de partilha e entreajuda foi outro fator essencial para transformar a Culatra numa referência de sustentabilidade e economia circular, sublinham todas as partes envolvidas no Culatra 2030. A força da comunidade revelou-se uma constante, mesmo nos períodos mais difíceis, como a pandemia, quando deixou de haver mão de obra para os trabalhos. “A certa altura, era preciso cavar valas de dois metros para instalar cabos elétricos, mas estávamos em pleno confinamento, por isso a única solução foi trazer cinco alunos da universidade e tentarmos fazer aquilo sozinhos. Quando demos por ela, tínhamos connosco 50 pessoas e duas máquinas a trabalhar num esforço coletivo”, recorda André Pacheco. 

O oceanógrafo e coordenador da iniciativa destaca também o papel da Associação de Moradores da Ilha da Culatra (AMIC), em particular da ex-presidente, onde encontrou sempre incentivo. Sílvia Padinha, líder da associação durante três décadas, explica que “ao passarem de intrusos a exemplo, pela primeira vez desde que a aldeia existe”, os moradores ganharam força para embarcar neste projeto. Condições só uma: “nunca abdicar da nossa identidade, queremos continuar a ser uma comunidade piscatória”. Também ela conhece bem a tal “cegueira pela luz” de que Gaspar Lopes fala: “lembro-me de ser adolescente, olhar para as luzes de Olhão e querer tanto dar um salto para o outro lado, porque eles podiam ter tudo, enquanto nós ficávamos aqui no escuro, sem poder ler ou ver televisão. Talvez isso também me tenha dado coragem para lutar, mais tarde, pelo projeto”. 

Sílvia passou recentemente o testemunho a Geraldo Carmo, que mantém o rumo da AMIC, norteado pelos valores comunitários. O novo presidente da associação lembra como é curioso que este grupo de pescadores preze tanto a sua liberdade e individualidade, preferindo ir para o mar sozinhos, mas depois “faça da união a maior força”. “Podemos ter as nossas diferenças, mas quando toca a rebate todos se juntam, seja para socorrer um naufrágio ou para trabalhar em prol de um projeto em que acreditamos”, diz o também vice-presidente da C-Coop.

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O dia em que a comunidade se juntou para ajudar os cientistas em plena pandemia
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Sílvia Padinha e Geraldo Carmo acreditam no progresso sem abdicar da identidade piscatória

Aprender, replicar, partilhar

Tal como a Culatra colheu ensinamentos em Samsø, ilha dinamarquesa que se tornou no primeiro território europeu neutro em carbono, também a aldeia algarvia já começou a inspirar outras comunidades, apostadas em replicar o modelo desenvolvido neste recanto da Ria Formosa com apenas 900 habitantes. “Se nós conseguimos fazer isto numa ilha, com todos os desafios que a insularidade acarreta, certamente que outros o conseguem, replicando o nosso exemplo, sejam eles territórios costeiros, isolados ou mesmo bairros urbanos que podem ser vistos quase como ilhas”, afirma André Pacheco. 

Esta partilha de conhecimento tornou-se especialmente profícua com o projeto CELL Rural, que procura promover a implantação de energias renováveis em áreas rurais de regiões transfronteiriças. Com ele, o piloto da Culatra encontrou eco em Vila Verde, que desenvolveu um sistema fotovoltaico no edifício da Adega Cultural, bem como em projetos de três municípios da Galiza – Moeche, Fointiveros e Xermade –, também assentes em módulos fotovoltaicos e comunidades energéticas. “Além destas, há muitas comunidades que já demonstraram interesse em replicar o que fazemos, por isso, já temos identificadas mais investigações que nos vão permitir trabalhar com outros países”, adianta Jóni dos Santos. Um deles envolve a Universidade La Sapienza, de Roma, que está a liderar um projeto de Distritos de Energia Positiva e “tem interesse na Culatra para perceber de que forma a ilha foi capaz de envolver a comunidade na criação de uma CER, nomeadamente nessa parte participativa de convencer as pessoas a fazerem parte”, revela André Pacheco. Recentemente também houve contactos com uma comunidade piscatória de Cabo Verde, interessada em replicar o que foi feito na ilha algarvia.  

Na opinião do investigador, a escassez do passado e o espírito comunitário da ilha favoreceram o sucesso da iniciativa, mas isso não significa que o mesmo não possa acontecer noutros territórios com contextos totalmente diferentes, incluindo urbanos. Basta haver “o gatilho certo” e interesses em comum. “Podemos olhar para o exemplo fantástico da CER de Telheiras, em Lisboa, uma cidade onde os vizinhos não se conhecem ou não há grandes relações de proximidade como na Culatra, mas também eles conseguiram unir esforços à volta de um foco. E qual foi ele? A partilha de energia!”. Isto porque existe um proveito que pode ser aproveitado pelo todo. “Neste caso não tiveram de entrar numa cooperativa ou partilhar um ideal de vida formatado, a única coisa que partilham são os recursos que oferecem benefícios económicos conjuntos. E isso pode acontecer em todo o mundo, desde Lisboa a Reiquiavique, por exemplo, onde também há um exemplo muito interessante de redes inteligentes”.

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O coordenador do Culatra 2030, André Pacheco (à esquerda), diz que o envolvimento dos moradores foi fundamental para o sucesso da iniciativa

E que limitações tem encontrado uma iniciativa como o Culatra 2030? Para o coordenador, a primeira foi mesmo “a falta de visão” do anterior executivo da Câmara Municipal de Faro, enquanto Sílvia Padinha sublinha a dificuldade de articular as sete entidades com poder de jurisdição na ilha, porque basta surgir numa areia na engrenagem para emperrar toda a engrenagem. Por sua vez, Jóni dos Santos lembra que “ser uma ilha traz muitos desafios extra, a começar pela dependência de fontes de energia externas, mas também os associados às alterações climáticas, como as tempestades que causaram danos nos últimos anos”. O presidente da C-Coop acrescenta ainda os riscos da pressão turística e o facto de a Culatra estar inserida numa zona protegida, o que inviabiliza, por exemplo, a instalação de turbinas eólicas.

Umas vezes contra ventos e marés, outras aproveitando os financiamentos que ajudam a viabilizar a ambição da iniciativa, a ilha da Ria Formosa tem sabido concretizar uma visão de partilha de energia que lhe dá o poder de gerir em comunidade o seu próprio futuro. A primeira meta aponta para 2030, mas tanto investigadores como população já olham para um futuro mais longínquo. “Gostava que, em 2025, as pessoas pudessem viver aqui com qualidade, que se tirassem todos os telhados de amianto que ainda existem na ilha, que se melhorasse a condição de climatização das casas e que a energia renovável produzida localmente estabelecesse benefícios na sua atividade principal, a pesca. Porque a pesca é a identidade desta comunidade”, diz André Pacheco. Quem mora na Culatra, como é o caso de Geraldo Carmo, junta-lha mais uma nota de esperança: “Tenho três filhos e estou convicto que o futuro deles passa pela ilha. Em 2050 não há de faltar gente nem energia para levar esta comunidade a bom porto”.

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As embarcações de madeira estão a ser substituídas por outras mais modernas, mas as tradições da pesca continuam orgulhosamente preservadas pelos culatrenses
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O Largo da Igreja é o principal ponto de encontro e de festas da aldeia. Também já lhe chamaram “Parlamento”, porque aqui se discute muito da vida da comunidade

Samsø, a ilha-modelo

Esta ilha dinamarquesa tornou-se um exemplo de sustentabilidade e autonomia ao ser o primeiro território no mundo a atingir 100% de autossuficiência energética através de fontes renováveis, feito alcançado em 1997. Atualmente, já produz mais energia limpa do que consome, enviando o excedente para a rede elétrica do país por cabos submarinos. Com cerca de 4 mil habitantes, tem servido de modelo e inspiração a muitas comunidades por toda a Europa, incluindo a Culatra. Em comum, as duas povoações têm o forte envolvimento da população nas decisões, seja através processos participativos e de cocriação ou no investimento em cooperativas locais.

No caso de Samsø, a maioria da produção é gerada por turbinas eólicas (terrestres e marítimas), mas a ilha tem procurado diversificar as fontes de energia, recorrendo também a centrais de biomassa e a painéis fotovoltaicos para assegurar parte do aquecimento doméstico. A próxima grande meta é deixar de consumir combustíveis fósseis até ao ano de 2030.

Publicado em 6 Março, 2026 - 08:00
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